APRESENTAÇÃO

Au Revoir Portugal! é um retrato histórico de 5 episódios, sobre a emigração portuguesa para França nas décadas de 50/60/70. Durante este período saíram do país, clandestinamente, cerca de dois milhões de portugueses. Tratou-se do maior êxodo e da maior hemorragia humana que alguma vez a História de Portugal conheceu.

Esta é portanto a história de todos esses homens que resolveram partir em busca de uma vida melhor para si e para as suas famílias, contadas na primeira pessoa. Relatos sofridos que mostram a forma dolorosa e arriscada como os portugueses partiam do país.


Esta é uma história sobre Portugal, uma história dos homens que o meu avó ajudou a levar para França, e é também a sua história e a minha, e estou certo que em qualquer outro ponto do Mundo o espectador encontrará um português com uma história parecida.
 

AU REVOIR PORTUGAL! - teaser

1 - SINOPSES


SINOPSES POR EPISÓDIO

- O Passador de Homens
- O Salto
- Ganhar a Vida
- Regressar
- Au Revoir!



AU REVOIR PORTUGAL – O Passador de Homens
(série documental - episódio #1)
Duração: 55 minutos

O meu nome é Carlos Domingomes. Nasci em França em 1980. A minha história é idêntica á de muitos portugueses. Os meus avós e os meus pais emigraram para França na década de 60 e 70. Em 1983, quando eu tinha apenas 3 anos de idade, os meus pais resolveram regressar a Portugal. O resto da família manteve-se em França, até aos dias de hoje. 

Vinte anos depois, em 2003, o meu avô faleceu. E foi só após a sua morte que descobri a sua verdadeira história: que Joaquim Gonçalves tinha sido um dos maiores passadores de homens a salto para França durante a ditadura Salazarista. Tinha passado milhares de homens, conterrâneos, desesperados, pobres, em busca de uma vida melhor para si e para as suas famílias, numa época em que sair do país sem autorização, era punido como crime muito grave.

O presente episódio pretende retratar esse período em que Portugal vivia uma ditadura, uma guerra colonial e uma extrema pobreza rural. Fugir ao regime, à guerra ou à miséria, era a única solução para milhares de homens e mulheres provenientes de diversos pontos do País. Mas para poderem sair de Portugal precisavam do então conhecido "passaporte de coelho" - uma fotografia rasgada, doze contos, e um Passador que os levaria na viagem das suas vidas... muitas vezes a última.  





AU REVOIR PORTUGAL – O Salto
(série documental - episódio #2)
Duração: 59 minutos


Entre 1958 e 1974 cerca de dois milhões de portugueses abandonou o seu país. Só em 1973 foram 123 mil. No ano seguinte, mesmo após todas as restrições à emigração por toda a Europa, saíram do país 71 mil pessoas. Fugiam da guerra das Colónias, da fome, da pobreza, da repressão. O principal destino: a França. 

A mala de cartão era tudo o que levavam, pois na verdade não tinham mais nada. Fugiam pela calada da noite, em grupo. Ao longo do caminho juntavam-se a outros grupos de homens, também eles fugitivos, provenientes de outros pontos do País e de outros Passadores. A viagem em Espanha era feita a pé, na bagageira dos carros, por baixo da palha dos camiões de porcos, em camionetas sobrelotadas. Ao chegar aos Pirinéus Franceses os grupos podiam chegar a ser constituidos por mais de 400 homens. Muitos deles nunca chegaram a passar a fronteira. Morreram de fome, sede, frio, doença. Perderam-se. Afogaram-se. Caíram. Foram mortos pelos próprios Passadores ou pelos carabineiros espanhóis.

A viagem de fuga, de duração indefinida, era conhecida como “O Salto”. Pela frente esperavam-lhes duas fronteiras, a PIDE, a Guarda Fiscal Portuguesa, a Guarda Civil Espanhola, os Gendarmes Franceses, e 2.000 Km feitos a pé.







AU REVOIR PORTUGAL – Ganhar a Vida
(série documental - episódio #3)
Duração: 63 minutos


Num artigo do jornal La Croix, escrito por Christian Rudel, em 1966 pode ler-se o seguinte excerto sobre a emigração portuguesa para França: “Eu, evoquei os mortos, os saqueados, os famintos, os mal alojados, os “tesos”, todos os oprimidos do moderno caminho de S. Tiago de Compostela. E esses inúmeros esquadrões de homens sombrios, tímidos e taciturnos, lançados em direcção ao Ocidente Indústrial, à procura de uma melhor vida para eles e para as suas famílias: um bocado de pão, uma pasta de chocolate e um litro de água para a refeição durante a viagem. E para acabar, o “bairro de lata” em Paris”

O presente episódio é um retrato e um testemunho dos homens e mulheres que chegando a França - a terra então prometida - se depararam com uma realidade bem diferente da que lhes tinha sido apresentada. Descidos do comboio que os levou à Gare de Austerlitz (Paris) era agora preciso encontrar abrigo, um emprego e os respectivos papéis para a legalização. Mas os problemas da língua, da cultura, das condições meteorológicas, das saudades, da discriminação e da integração eram demasiado cruéis para que o Sonho de uma vida melhor pudesse ser assim tão simples. 



AU REVOIR PORTUGAL – O Regresso
(série documental - episódio #4)
Duração: 62 minutos

Eis-nos chegados ao mês de Agosto. Mês do calor, dos emigrantes, das festas de aldeia, dos incêndios florestais, das procissões, das bebedeiras.
 
Em 1992 foram cerca de 22.800 emigrantes a regressar a Portugal. Em 2009 estima-se que sejam apenas 8.000. A maioria dos emigrantes teve filhos e netos que nasceram em França, e estes filhos/netos integraram-se completamente: vão à escola, tem a sua profissão, falam perfeitamente o francês. 

Os emigrantes misturam os idiomas, vivem um estilo de vida que Portugal não lhes consegue oferecer, esbanjam as poupanças de todo um ano de trabalho num mês de euforia. Mas, como verdadeiros Portugueses,  maldizem compulsivamente Portugal, derramam o seu sangue luso nas pegas de bois, e todos sonham um dia regressar. 

Quando chega a hora da reforma encontram-se divididos. Muitos partilham o tempo entre Portugal e a França. Muitos sentem que têm uma dupla identidade: portuguesa e francesa. 
Estão definitivamente ligados a esse país que os acolheu.




AU REVOIR PORTUGAL – Au Revoir!
(série documental - episódio #5)
Duração: 50 minutos

Qual é a minha história? De onde venho e para onde vou? O que é ser-se emigrante? O que é ser-se português? 

Durante alguns anos da minha vida senti-me desenraizado, deslocado, sem saber onde na realidade pertencia. Em França era visto como um filho de estrangeiros e em Portugal como um emigrante, um “português afrancesado”. Era estrangeiro não importava onde estivesse.

Vinte e quatro anos depois da partida, resolvo percorrer as mesmas estradas que os meus pais em 1983 deixaram para trás pela última vez. Parto em busca de respostas. Parto em busca dos mais jovens, dos luso-descendentes. Parto em busca das memórias, das nossas histórias, das nossas raízes. Mas será que a partida é apenas um Au Revoir?...

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AU REVOIR PORTUGAL SELECCIONADO PARA O FEST!

Au Revoir Portugal! foi seleccionado para o Festival Internacional de Cinema de Espinho (FEST). Foram submetidos ao Festival mais de 1500 filmes de diversos países, pelo que fazer parte da Selecção Oficial do Júri é uma excelente notícia!

O Festival de correrá de 21 a 28 de Junho de 2009. 


WebSite do Festival: 
http://www.fest.pt

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Entrevista na Rádio Montalegre - próximo dia 16 e 17 de MAIO


Entrevista com Carlos Domingomes, realizador de: Au Revoir Portugal!


Sábado entre as 12h00 e 13h00, repete domingo 10h00 - 11h00.
FREQUÊNCIA: 97.5 FM
OUVIR ONLINE: www.radiomontalegre.net



Au Revoir Portugal! é um retrato histórico de 5 episódios, sobre a emigração portuguesa para França nas décadas de 50/60/70. Durante este período saíram do país, clandestinamente, cerca de dois milhões de portugueses. Tratou-se do maior êxodo e da maior hemorragia humana que alguma vez a História de Portugal conheceu.

Au Revoir Portugal! é uma série de 5 documentários. AU REVOIR PORTUGAL - O Salto foi seleccionado para o Festival dos Caminhos do Cinema Português 2009, em Coimbra.
Carlos Domingomes é o principal mentor e realizador destes registos. Entrevista para ser ouvida na proxima edição do Vozes do Povo 16 e 17 de Maio.

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AU REVOIR PORTUGAL seleccionado para Coimbra!



O documentário AU REVOIR PORTUGAL - O Salto foi seleccionado para o Festival dos Caminhos do Cinema Português 2009, em Coimbra, e irá estar na secção competitiva de filmes documentais conjuntamente com os seguintes documentários:

Documentários
Outside de Sérgio Cruz – 15’
O Fruto Rei de Manuel Bernardo Cabral – 52’
Milho de José Barahona – 54’
Coração Independente de Joana Cunha Ferreira – 50’
6=0 Homeostética de Bruno de Almeida – 52’
Falamos de António Campos de Catarina Alves Costa – 60’
O Voo do Humbi-Humbi 
de Carlos Eduardo Viana – 60’
O Meu Amigo Mike ao Trabalho de Fernando Lopes – 49’
Corpo Todo de Pedro Sena Nunes – 36’
Ritmos da Cidade de Luís Margalhau – 37’
Mulheres de Raia de Diana Gonçalves – 42’
Au Revoir Portugal – O Salto de Carlos Domingomes – 58

O Festival decorrerá de 18 a 26 de Abril na cidade de Coimbra.

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2 - INTRODUÇÃO

AU REVOIR, PORTUGAL! – INTRODUÇÃO

Entre 1958 e 1974, 1,5 milhões de portugueses abandonaram o seu país. Só em 1973 foram 123 mil. No ano seguinte, mesmo após todas as restrições à emigração por toda a Europa, saíram do país 71 mil pessoas. Fugiam da guerra das Colónias, da fome, da pobreza, da repressão. O principal destino: a França. A mala de cartão era tudo o que levavam, pois na verdade não tinham mais nada.

O Decreto-Lei nº 39749 de 1954 classificava a emigração clandestina como um crime, estabelecendo sanções penais e atribuindo à PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) competências para a reprimir.

 A emigração portuguesa, durante este período, ainda está por estudar em toda a sua extensão e implicações. Foi um período negro da história de Portugal que afectou sobretudo a população mais carenciada, de província, mas a uma escala sem precedentes. Guarda, Viseu, Castelo Branco, Montalegre, Minho, as terras de onde saíram a maior parte dos portugueses em direcção às fronteiras com Espanha, nomeadamente à de Vilar Formoso. Ao partir, essas pessoas levavam consigo a esperança de conseguir uma vida melhor, deixando para trás os filhos, as mães, as esposas, a sua Pátria. Endividavam-se para poder pagar a viagem. Partiam durante a noite, às escondidas, por terras desconhecidas, na tentativa de dar o “salto”. Fugiam a pé, juntando-se a grandes grupos guiados por “passadores”. Fugiam da PIDE, da Guardia Civil Espanhola, dos Gendarmes franceses, pondo em risco a própria vida. Muitos deles não chegavam ao destino – eram enganados pelos passadores, morriam de frio ou fome, caiam por uma ravina, eram mortos ou capturados e reenviados para Portugal onde lhes esperavam severas punições por parte da PIDE…

E, aqueles que conseguiam, rapidamente se apercebiam que a felicidade de uma vida melhor se tornava amarga com a saudade de um país e familiares que deixavam para trás.

 O presente documentário visa sobretudo prestar tributo a essas gentes, nossos conterrâneos, que têm uma história para nos contar: uma história de traços humanos inimagináveis, vivida na primeira pessoa. Homens que foram retratados por Christian Rudel, jornalista do jornal La Croix, em 9/11/1966, do seguinte modo: 

"Eu, evoquei os mortos, os saqueados, os famintos, os mal alojados, os “tesos”, todos os oprimidos do moderno caminho de S.Tiago de Compostela: Esses inúmeros esquadrões de homens sombrios, tímidos e taciturnos, lançados em direcção ao Ocidente industrial, à procura de uma melhor vida para eles e para as suas familias: um bocado de pão, uma pasta de chocolate e um litro de água para a refeição durante a viagem. E para acabar, o "bairro de lata" em Paris."

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4 - RELATOS E HISTÓRIAS


ENVIE-ME O RELATO DA SUA VIAGEM, DO SALTO. DIGA-ME COMO FOI, DO QUE SE LEMBRA, QUAIS OS MOMENTOS MAIS COMPLICADOS DA VIAGEM. COMENTE DIRECTAMENTE NO BLOG OU ENVIE MENSAGEM PARA O MEU E-MAIL: CARLOS.DOMINGOMES@GMAIL.COM


Em baixo - excerto de entrevista a emigrante português José de Moura.

José de Moura. Tenho 69 anos de idade. Em tempos, em 1964, resolvi ir para a França, em 23 de Fevereiro.Fui daqui para Montalegre a pé. De Montalegre saímos para fora. Em Gralhas vimos uma chega de bois, a pé sempre, dali a Soutelinho da Raia. Em Soutelinho da Raia estivemos até à meia-noite numas terras, metidos no meio de umas silvas agachados, na fronteira. Dali seguimos, fomos ali para um povo espanhol que nos meteram num palheiro, estivemos lá o resto da noite, comer nada. O resto da noite e estivemos para o outro dia todo o dia. Chovia muito diz que não podíamos sair. De dia comemos, uma vez, ao menos comemos. Ao escurecer saímos, passamos lá num riozito não tinha ponte tinha uma trave só. Passamos todos na trave, onde dali já íamos 44 homens, com dois passadores. Passamos aquele rio, fomos por cima de Verin, é uma floresta, os pinheiros ainda eram pequenos, meteram-nos lá no meio da floresta, chegou-nos uma notícia que estávamos denunciados. Estivemos lá todo o dia, amanheceu estivemos lá todo o dia e toda a noite e para o outro dia todo o dia. Comer nada, ninguém foi prender-nos, ninguém nos apareceu. Nós não nos podíamos pôr de pé, sequer, porque ao pôr-nos de pé viam-nos de Verin, viam-nos de frente, de todos os lados, não tivemos outro sítio melhor onde nos esconder.

 

   "Não cabíamos, fomos a cavalo uns dos outros"

 

À noite escureceu, vai lá um homem chamar-nos: - "Vinde depressa para a estrada, vinde atrás de mim", um passador. Fomos todos de gatas à estrada. Chegamos à estrada estava lá um camião de marcha atrás encostado a uma barreira com a porta de trás aberta, um camião de gado fechado. Entrámos todos para dentro, uns a cavalo dos outros, aos empurrões. Meteram-nos dentro daquele camião. Comer nada. Não cabíamos, fomos a cavalo uns dos outros. Andámos, andámos, sem saber para onde nos levar. De noite, quando era que a gente precisava de fazer as nossas necessidades tínhamos um buraquinho redondo, no fundo do camião, no piso do camião e era ali que nos servíamos. Andámos sem destino, o camião andou sempre. Frio, fome etudo que era de ruim. Fomos lá a um povo espanhol, lá passado de Ourense, lá num sei por onde era, a gente num via era de noite dentro de um camião fechado, tanto valia ser de noite como de dia. Parou o camião, abriram-nos a porta de trás entra um homem dentro do camião: - "Fora, fora, fora" - botaram-nos todos para fora do camião aos tombos e já estava outro fora - "Vinde atrás de mim".

 

   "Tiroteio no túnel"

 

Seguimos numas escadas de uma igreja, uma igreja à volta de uma povoação, um escadario alto, chegamos à coroa, pulamos o muro para fora, meteram-nos numa linha de comboio antiga, já desabitada. Entrámos num túnel, estava cheio de ervas, codeços, silvas, aquilo não era transitado. Assim que entrámos dentro da linha, os tiros de trás de nós pelo túnel dentro, uns de trás e outros da frente, era só tiros não se ouvia outra coisa. Era só fogo, quando o passador nos disse: - "Tudo para terra" - nós deitamo-nos, e - "Fiquem quietos. Até segunda ordem ninguém se mexa". O fogo parou, os passadores foram falar com quem dava o fogo, os polícias ou lá com quem foi, estivemos ali umas duas ou três horas de noite, frio, chuva, tudo, fome. Dali, desde que parou o fogo, por um bocado veio então um passador e disse assim: - "De pé e acompanhem" - toca a acompanhar todos atrás dele.

 

   "Nós íamos mal, começamos a gritar"

 

Fomos um pedaço grande, já era quase dia, fomos para a estrada estava uma carrinha pequena aberta. Éramos 44 homens, nem dez lá cabiam, mas tivemos que caber todos, era a subir na estrada. A carrinha não podia connosco, nós íamos mal começamos a gritar. Um colega meu, que já morreu, começou às vergastadas com o guarda - chuva em cima da cabine do carro para o chofer parar. O chofer diz que viu que a coisa era a mais parou - "Se não quereis seguir desceide e fugi, fugi para aquela corga". Nós não podíamos ir no carro, fugimos todos do carro e metemo-nos numa corga, onde encontrámos um lameiro, não podíamos ir de pé, tínhamos que ir aos tombos de encosta. 

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11 - NOTA DE INTENCOES DO REALIZADOR


"quando o meu avó morreu, descobri a sua verdadeira identidade: Joaquim Gonçalves tinha sido um grande "Passador"; apercebi-me então do quanto efémera pode ser a memória humana..."


O meu nome é Carlos Domingomes. Sou filho de emigrantes e nasci em França em 1980. Lembro-me de quando criança, sempre que os meus pais faziam a viagem França-Portugal ou Portugal-França de os ver muitas vezes chorar ao chegar à fronteira de Vilar Formoso. Na altura não percebia aquela reacção. Sei hoje que choravam de alegria ao chegar, e de tristeza  ao partir. Lembro-me dos fortes abraços que davam aos meus avós quando chegavam às suas terras-natal. E os fortes abraços e beijos que os meus avós me davam quando tinha de regressar para França. Lembro-me das músicas que tocavam no rádio do carro, k7s já gastas e envelhecidas de tanto serem usadas, que os meus pais ouviam repetidamente ao longo da viagem ( sobretudo Linda de Suza e Roberto Leal), e lhes faziam recordar Portugal.

Durante alguns anos da minha vida senti-me desenraizado, deslocado, sem saber onde na realidade pertencia. Em França era visto como um filho de estrangeiros. Em Portugal como um emigrante, um “português afrancesado”. Era estrangeiro não importava onde estivesse. Sentia-me deslocado e magoado por ter de viver aquela situação, sem saber realmente onde pertencia, sem saber a que terra chamar Pátria. Como eu milhares de outros jovens luso descendentes. Mas depois apercebi-me que a minha desorientação não se equiparava à grande dor que trespassava o coração e o olhar de todos aqueles que me rodeavam: os meus pais, os meus avós, os meus tios, os vizinhos, os conhecidos – os verdadeiros emigrantes desenraizados. Obrigados a deixar um país e com ele o coração. Tentei entender essa dor, esse olhar. Tentei através deles encontrar respostas para mim. Encontrei muitas histórias. Alegrias também, sobretudo onde e quando um grupo de portugueses emigrantes se junta. Descobri o quanto se consegue lutar e trabalhar, passar sacrifícios, para conseguir o dinheiro necessário para alimentar a família e um dia poder regressar. Descobri seres humanos de dimensões gigantescas, iletrados, incultos, analfabetos, brutos, mas paradoxalmente sábios, puros, sinceros, empreendedores, corajosos, com peito de criança, que desejam acima de tudo regressar um dia ao seu País-Natal e recuperar o que um dia deixaram para trás. E descobri que sou um reflexo da sua história, uma continuação, da qual, apesar das enormes dificuldades, me orgulho. Descobri que tenho o dever de não esquecer as suas histórias e de as fazer lembrar ou fazer conhecer a todos aqueles que as não viveram ou conheceram. Descobri que preciso de retratar este período da nossa história, dar às suas “personagens” a dignidade que merecem, fazer uso do meu métier para falar e fazer ouvir o misto de alegria e tristeza que é ser Emigrante português. Este projecto é claramente mais que um mero trabalho – como o poderia ser? Representa um testemunho e uma busca apaixonada, cheia de força e vontade de ir ao encontro de todas essas gentes, desses “homens sombrios, tímidos e taciturnos, lançados em direcção ao Ocidente industrial”  e também, talvez, através deles e deste documento encontrar a minha verdadeira raiz. É isso que me move e me faz querer construir esta obra “Au Revoir Portugal”.

 

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5 - FOTOGRAFIAS E CONTEUDOS AUDIOVISUAIS

AQUI PODERÁ ENCONTRAR FOTOGRAFIAS ANTIGAS, SOBRE OS MODOS DE VIDA ANTIGA, SOBRE  EMIGRANTES OU SOBRE A EMIGRAÇÃO; SE PRETENDER ENVIAR-ME AS SUAS FOTOS PARA QUE POSSAM INTEGRAR O ESPÓLIO DE FOTOGRAFIAS SOBRE A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA, E ATÉ MESMO PARA INTEGRAR O DOCUMENTÁRIO "AU REVOIR PORTUGAL!" ENVIE-AS POR E-MAIL PARA CARLOS.DOMINGOMES@GMAIL.COM.


Em cima - Fragmento da vida antiga. Carro de bois. 

Em cima - Algumas réplicas de fotos de meus familiares que foram usadas para o Salto. Estas fotografias eram rasgadas ao meio antes da partida. Uma das partes ficava com familiares e a outra seguia com o emigrante que, ao chegar ao destino, a enviava de volta para a família, para que esta pudesse pagar ao passador.



Em cima - fragmentos da vida dos emigrantes nos Bidonvilles (st. Denis e Champigny).



Em cima - No Sud Express a caminho de França...

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6 - FILMAGENS EM MONTALEGRE




Através do contacto estabelecido com o EcoMuseu de Barroso e respectiva Câmara Municipal de Montalegre, iremos proceder à captação de imagens da rota do contrabando em Montalegre nos próximos dias:
9 de Agosto 2008
Manha - rota do Contrabando em Vilar de Perdizes
Tarde - Segada do centeio, Aldeia de Paredes do Rio
Além destas filmagens será realizado um trabalho de pesquisa e filmagens do Município entre os dias 28 de Julho e 6 de Agosto.



ALGUMAS PALAVRAS DO REALIZADOR:
Gostaria de transmitir publicamente todo o meu apreço e agradecimento a todos aqueles que me ajudaram a levar a cabo as filmagens em Montalegre, em geral: - Toda a População de Montalegre, Vilar de Perdizes, Tourém, Paredes do Rio, Vieira do Minho, Gerês, Chaves, Bouticas. em particular: - Exma Sra Fátima Teixeira da Rádio Montalegre que amavelmente tem dado enfoque ao AU REVOIR PORTUGAL no seu programa centrobarrosão.com - Professora Fátima Crespo de Vilar Perdizes, organizadora da Rota do Contrabando, que consegue através de um esforço enorme mas movida de grande paixão pela sua terra e pelas tradições levar a cabo esta iniciativa em Vilar Perdizes, mobilizando toda a gente. Sem ela não teria sido possível uma Rota do Contrabando "personalizada" apenas para as minhas filmagens !! Foi um luxo! - Sr. Acácio e filho José Carlos, de Paredes do Rio que tão agradavelmente nos receberam para que pdessemos fazer um registo dessa tradição tão antiga e bonita que é a Segada e Malhada do Centeio. O meu grande abraço, ficando a promessa de que, aquando de um regresso a Montalegre lá passarei para mais uns dedos de conversa. - Sr. Paulo, presidente da Junta de Freguesia de Tourém, pelo esforço e paciência em ter conseguido mobilizar alguns dos figurantes para mais uma Rota do Contrabando personalizada apenas para as minhas filmagens! (Espero que tenha gostado do DVD!) - Exma Sra Cristina Duarte, directora do Quallity Inn - Montalegre, que tão amistosamente aderiu a esta iniciativa, e que tão simpaticamente nos acolheu! Muito agradecidos! - Sr. Fernando Carvalho e sua esposa que de forma tão familiar nos acolheram na Casa dos Braganças! - Todos os figurantes da Rota do Contrabando em Vilar Perdizes (bom almoço me ofereceram! :) ) e Tourém que apesar de um calor abrasador, por amor à camisola, aderiram à proposta, bem como todos os participantes da Segada em Paredes do Rio cuja alegria com que ali estiveram me emocionou imenso. Bom vinho me serviram lá! :) Um agradecimento especial a todos os entrevistados e a todos aqueles que se cruzaram na nossa rota!! Uma última ressalva para aqueles que esperavam nos ver na Rota do dia 11, amanhã, em Tourém: tivémos o previlégio de durante a passada semana, tanto em V. Perdizes como em Tourém, de ter tido uma Rota do Contrabando e respectivas Encenações só para as nossas objectivas das câmaras - as filmagens que já realizámos foram sem público a assistir, pois assim o documentário o exige! Por outro lado, por motivos pessoais ser-me-á impossível estar presente amnhã dia 11 em Tourém. Concluindo estes meus agradecimentos, gostaria de vos congratular por tão bela terra que tendes, tão belas paisagens e gentes, fauna e flora, gastronomia e tradições - também uma referência especial à Chega de Bois que tive oportunidade de assistir e pela qual me apaixonei! - Quanto à Rota do Contrabando, um apelo aos poderes locais e centrais (nomeadamente Câmara Municipal e Ecomuseu) para que reforcem o apoio a todas estas iniciativas, e outras, pois são elas que trazem mais gente às terras, e sinceramente, permitam-me que (apesar de ser de fora de Montalegre) vos diga fiquei surpreendido como com tão poucos recursos estes organizadores de V.Perdizes e Tourém conseguem pôr de pé estes eventos grandiosos! Parabéns Montalegre e suas gentes! Carlos Domingomes http://aurevoirportugal.blogspot.com 

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7 - APOIOS DE ENTIDADES PUBLICO-PRIVADAS

"Au Revoir, Portugal!" é um projecto independente, totalmente financiado pelo próprio autor, o que acarreta um enorme peso individual nos custos de produção, para que possa ser levado a bom termo. Com o apoio directo de uma entidade estatal como uma televisão ou uma entidade cultural, o projecto podia ser concluído com maior celeridade. No entanto, apesar das limitações financeiras e de já terem decorrido 5 anos desde as primeiras filmagens, o projecto tem vindo a crescer pouco a pouco. 

Infelizmente, muitos dos entrevistados que amavelmente me cederam as suas histórias, já não vão a tempo de se poderem ver na Tv. Alguns faleceram ao longo dos últimos 5 anos. Ficou a sua história, que aguarda o dia em que finalmente possa ver a luz ao fundo do túnel e que todos a possam ouvir. O dia está para breve! Neste momento a série documental já se encontra em fase de pós-produção e estima-se que em 2009 esteja concluído. Todo o apoio é bem-vindo nesta última fase do projecto, e ele fará toda a diferença. Se entender que pessoalmente, ou através da sua entidade ou empresa, tem interesse em ajudar e apoiar este projecto, contacte-me para carlos.domingomes@gmail.com. O seu apoio é vital. 


APOIOS LOGÍSTICOS OBTIDOS:



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8 - COMPRAR DVD "AU REVOIR, PORTUGAL!"


A 1ª Edição em DVD de "AU REVOIR, PORTUGAL!", com 5 documentários, totalizando 4h40 de duração, será lançada em 2009. Trata-se do documento fílmico mais completo e profundo alguma vez realizado sobre a emigração portuguesa para França. Desde as condições de vida da altura, tradições, dificuldades, passando pela viagem do Salto, pela vida dura em França, e terminando na actualidade, este é um DVD que vai querer ter consigo! 


Uma vez que sei que para os portugueses que se encontram longe de Portugal, ou mesmo de Lisboa, é-lhes muitas vezes difícil encontrar CDs e DVDs portugueses para comprar, podem desde já efectuar a sua reserva para adquirir o DVD "Au Revoir, Portugal!". Faça-me chegar um e-mail com essa intenção. Na altura própria contactá-lo-ei para informar da melhor forma de o adquirir.

Carlos Domingomes






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9 - NOTICIAS

No âmbito do projecto "Au Revoir Portugal!" sobre a emigração portuguesa para França, será emitida na próxima Quinta-Feira dia 31 de Julho às 13h e às 22h no programa Centrobarrosao.com da Rádio Montalegre, uma entrevista realizada ao realizador Carlos Domingomes por Fátima Teixeira. O programa repetirá no Domingo dia 3 de Agosto às 12h.



Realizador Carlos Domingomes está a filmar no Barroso 

Emigração a "salto" retratada em documentário

Carlos Domingomes está em negociações com a estação de televisão pública, no sentido de o trabalho vir a ser exibido em quatro episódios
Carlos Domingomes está em negociações com a estação de televisão pública, no sentido de o trabalho vir a ser exibido em quatro episódios
Um jovem realizador está a recolher imagens no concelho de Montalegre. As filmagens vão integrar um documentário que Carlos Domingomes está a produzir há cinco anos sobre a emigração a “salto” para França nas décadas de 50, 60 e 70. “Au Revoir Portugal” deverá ficar pronto no final deste ou no início do próximo ano e poderá ser exibido na RTP se as negociações entre a estação de televisão e o realizador se concretizarem.

Quando o avó morreu, Carlos Domingomes percebeu o quanto é efémera a memória humana e a importância de a reter. Foi assim que o jovem realizador, residente em Lisboa, mas com raízes na Guarda, iniciou o projecto que agora está prestes a finalizar: a realização de um documentário sobre a forma como milhares de portugueses emigraram para França nas décadas de 50/60/70. Esta semana, o também professor na Escola Secundária Especializada em Ensino Artístico Antonio Arroio, em Lisboa, e filho de pais emigrantes, esteve a recolher imagens e testemunhos no concelho de Montalegre, que irão, sobretudo, servir para retratar o modo de vida de então. O contrabando será um dos temas abordados. E a aldeia de Vilar de Perdizes, onde a prática tinha grande expressão, foi um ponto de passagem do realizador.

Carlos Domingomes está em negociações com a estação de televisão pública, no sentido de o trabalho vir a ser exibido em quatro episódios. Não seria a estreia do realizador no grande ecrã. Já em 2005, um outro documentário do realizador, “Lá em cima bem perto do céu”, foi exibido na RTP2, no programa Onda Curta.

Em declarações ao Semanário TRANSMONTANO, Carlos Domingomes considerou que o tema “continua muito actual” e que o fenómeno da emigração está a “ressurgir”. No entanto, é de opinião que o assunto ainda é “um universo muito desconhecido” e que há ainda muita dificuldade por parte das pessoas em relembrar essas vivências. E, por isso, acredita que este trabalho seja “o mais profundo” que exista sobre a emigração para França.

Por: Margarida Luzio

Em SEMANÁRIO TRANSMONTANO 

URL: http://www.semanariotransmontano.com/noticia.asp?idEdicao=148&id=6410&idSeccao=1897&Action=noticia


 NOTÍCIA EM RADIO CLUBE PORTUGUÊS

Sociedade - 08-08-2008 
Carlos Domingomes filma em Montalegre 
 (para ouvir excerto da entrevista ir http://radioclube.clix.pt/noticias/body.aspx?id=11227 )

O realizador Carlos Domingomes escolheu Montalegre como cenário de um documentário sobre emigração a salto. O novo filme de Domingo chama-se "Au Revoir Portugal" e quer mostrar a forma dolorosa e arriscada como os portugueses saíam do país, rumo a França nas décadas de 50, 60 e 70.


Em declarações ao Rádio Clube, o realizador explica que a ideia de fazer um documentário sobre o tema ganhou consistência há cinco anos atrás, depois da morte do avô, um passador de emigrantes. 

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