
"quando o meu avó morreu em 2003, descobri a sua verdadeira identidade: Joaquim Gonçalves tinha sido avô, homem de família, mas também um dos maiores "Passadores" da zona da Guarda; apercebi-me então do quanto efémera pode ser a memória humana..."
O meu nome é Carlos Domingomes. Sou filho de emigrantes e nasci em França em 1980. Lembro-me de quando criança, sempre que os meus pais faziam a viagem França-Portugal ou Portugal-França de os ver muitas vezes chorar ao chegar à fronteira de Vilar Formoso. Na altura não percebia aquela reacção. Sei hoje que choravam de alegria ao chegar, e de tristeza ao partir. Lembro-me dos fortes abraços que davam aos meus avós quando chegavam às suas terras-natal. E os fortes abraços e beijos que os meus avós me davam quando tinha de regressar para França. Lembro-me das músicas que tocavam no rádio do carro, k7s já gastas e envelhecidas de tanto serem usadas, que os meus pais ouviam repetidamente ao longo da viagem ( sobretudo Linda de Suza e Roberto Leal), e lhes faziam recordar Portugal.
Durante alguns anos da minha vida senti-me desenraizado, deslocado, sem saber onde na realidade pertencia. Em França era visto como um filho de estrangeiros. Em Portugal como um emigrante, um “português afrancesado”. Era estrangeiro não importava onde estivesse. Sentia-me deslocado e magoado por ter de viver aquela situação, sem saber realmente onde pertencia, sem saber a que terra chamar Pátria. Como eu milhares de outros jovens luso descendentes. Mas depois apercebi-me que a minha desorientação não se equiparava à grande dor que trespassava o coração e o olhar de todos aqueles que me rodeavam: os meus pais, os meus avós, os meus tios, os vizinhos, os conhecidos – os verdadeiros emigrantes desenraizados. Obrigados a deixar um país e com ele o coração. Tentei entender essa dor, esse olhar. Tentei através deles encontrar respostas para mim. Encontrei muitas histórias. Alegrias também, sobretudo onde e quando um grupo de portugueses emigrantes se junta. Descobri o quanto se consegue lutar e trabalhar, passar sacrifícios, para conseguir o dinheiro necessário para alimentar a família e um dia poder regressar. Descobri seres humanos de dimensões gigantescas, iletrados, incultos, analfabetos, brutos, mas paradoxalmente sábios, puros, sinceros, empreendedores, corajosos, com peito de criança, que desejam acima de tudo regressar um dia ao seu País-Natal e recuperar o que um dia deixaram para trás. E descobri que sou um reflexo da sua história, uma continuação, da qual, apesar das enormes dificuldades, me orgulho. Descobri que tenho o dever de não esquecer as suas histórias e de as fazer lembrar ou fazer conhecer a todos aqueles que as não viveram ou conheceram. Descobri que preciso de retratar este período da nossa história, dar às suas “personagens” a dignidade que merecem, fazer uso do meu métier para falar e fazer ouvir o misto de alegria e tristeza que é ser Emigrante português. Este projecto é claramente mais que um mero trabalho – como o poderia ser? Representa um testemunho e uma busca apaixonada, cheia de força e vontade de ir ao encontro de todas essas gentes, desses “homens sombrios, tímidos e taciturnos, lançados em direcção ao Ocidente industrial” e também, talvez, através deles e deste documento encontrar a minha verdadeira raiz. É isso que me move e me faz querer construir esta obra “Au Revoir Portugal”.
